Eu devia estar contente/ Porque eu tenho um emprego/ Sou um dito cidadão respeitável/ E ganho quatro mil cruzeiros/ Por mês.../ Eu devia agradecer ao Senhor/ Por ter tido sucesso/ Na vida como artista/ Eu devia estar feliz/ Porque consegui comprar/ Um Corcel 73.../ Eu devia estar alegre/ E satisfeito/ Por morar em Ipanema/ Depois de ter passado/ Fome por dois anos/ Aqui na Cidade Maravilhosa.../ Ah!/
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A identificação radical que surge na vida do sujeito: Para onde mais ir quando sou o que sou, meu eu me aparece com clareza? O que mais descobrir? Que fazer, pra onde ir, quando tudo já está feito e quando tudo já é conhecido? Circular por terrenos já circulados?
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Eu devia estar sorrindo/ E orgulhoso/ Por ter finalmente/ vencido na vida/ Mas eu acho isso uma grande piada/ E um tanto quanto perigosa...
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O discurso hierarquizado: Venci. E agora, gozar como gozam os anjos? O tédio apavora. O topo sorri e diz: de agora em diante, só queda, só para baixo. Vencer na vida é ver a vida com finalidade num percurso pré-visto. Terminar a corrida? O vislumbre é o de parar. Parar terrifica quem se move para viver. Ser um tubarão: se parar, morre. A grande piada é parar e morrer, achar-se diferente de um peixe e ter que sê-lo para poder continuar sendo alguma coisa. Não se pára nunca. Se vence na vida vencendo. É o paradoxo de nunca poder dizer venci, mas ver que vencer é completamente possível. A chave: Imperativo de mover-se, mesmo parado, produzir, mesmo aparentemente imóvel. O tédio não surgiria nunca. Brincadeira de palavras. Há tédio e há tédio. O tédio-morte, que é vencer na vida, contar essa grande piada. E o tédio que na verdade é impossível, dentro dum esquema de impossibilidade de vencer-e-ver-se-parado, o tédio não surgiria. Não há tédio em ver sempre novidades. Há tédio em ver sempre novidades quando se tem o tédio-morte. É questão de poder montar um agenciamento com as coisas. Ser levado ou querer sê-lo. Fugir, fazer fugir. ...
Eu devia estar contente/ Por ter conseguido/ Tudo o que eu quis/ Mas confesso abestalhado/ Que eu estou decepcionado.../ Porque foi tão fácil conseguir/ E agora eu me pergunto "e daí?"/ Eu tenho uma porção/ De coisas grandes prá conquistar/ E eu não posso ficar aí parado...
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Não poder ficar parado é ter que sempre mover-se, não necessariamente andar. A subjetivação poder ser múltipla. Não preciso ser tudo que aparentemente teria que ser. Não há necessidade de parar. Nem deve-se querer vencer - e pronto. Não é super-ambição. É não ter que morrer. Parar e entediar-se como quem não tem mais pra onde ir: Gozo-Tédio.
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Eu que não me sento/ No trono de um apartamento/ Com a boca escancarada/ Cheia de dentes/ Esperando a morte chegar.../ Porque longe das cercas/ Embandeiradas/ Que separam quintais/ No cume calmo/ Do meu olho que vê/ Assenta a sombra sonora/ De um disco voador...
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O Imperativo de movimento não assombra, não é motivo de pânico. Ser nômade não é ser neurótico. Ninguém precisa de TOC psiquiátrico. Longe das cercas, das divisões, das subdivisões, das regras e das obscenidades políticas, contra essas políticas, outra política. Criar, agenciar, circular pelas cercas, tudo bem. Ver até onde se quer circular pelas cercas e circular por todo o canto. Pelo espaço, com os ETs, como diria a minha Tia. Embarcar num disco voador e voar sem rumo com a mesma facilidade que se dá uma volta no quarteirão, passando por todas as cerquinhas coloridas do caminho.