As palavras são fracas sim, porque todas as palavras são fracas. E sem relativizar o que digo. É firme que repito: todas as palavras são fracas. O indescritível do impossível é não-sentido - que torna viável a vida. É a lógica da própria vida, tornar-se viável pelo projeto fraco e falível das palavras. O gozo já é significado. O prazer que temos, já temos que conseguir falar desse prazer que tivemos: que prazer falar daquele prazer! Que viremos bichos que esperam o pênis murchar sem pensar que o pênis está murchando! Vir a ser cachorros sem sermos cachorros e já sendo cachorros. Latir sem pensar que se late nem cogitar a possibilidade de um dia ser possível um latido qualquer. Retornar ao animalesco sem sermos os animais. Só a partir do impossível a vida é possível - essa nossa vida, diga-se bem, posto que toda vida já foi possível antes de ser assim, o que dizemos vida. Parir é um gesto que nunca se concretiza. Nunca saímos de nosso estado de estarmos dentro uns dos outros. Isso acontece com poucos que explodem onde estão. Pensam no impossível. Fazem isso, o impossível. O texto dela é um texto da curva e da música, é um texto onde as palavras são palavras que não remetem às palavras, tais como as conhecemos. É intensidade, isso já é outra coisa que não palavra. A música é muito mais que palavras. A curva e as linhas que saltam pra mim, na minha boca, na minha língua, no meu olho que goza, são palavras fortes que já não são nem de perto palavras. É pura impossibilidade que faz a possibilidade gritar como possível à mim. Ela faz explodir. Ela faz fazer. Faz fugir. Me faz querer fazer fugir e, logo em seguida, fazer fugir. Devir. Eu saio de mim e de todos que me parem, que me parem de parir porque quem explodiu fui eu - ou nós. Ou simplesmente qualquer coisa, pois já nem importa dizer Eu. E ainda tem tanta coisa por dizer. Eu quero falar pra ela ouvir. Tem tanta coisa. E a aflição que dói disso me dói por saber que quero dizer tudo o que sinto com palavras. Mas tenho o cheiro, que na verdade é gosto bom na língua, e o cheiro é o que eu direi em seguida ao que digo agora. Direi do impossível, direi do cheiro que é gosto. Por agora, o próprio escrever fica impossível. E que chance de vida, quando do impossível.
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