Será que saber é suficiente? Saber-se tratado por choques é coisa já suficiente para fazer-nos pular fora da coisa tratada? Não encontram nada objetivo até hoje, não há conclusões. O sujeito na Mania (do Transtorno Bipolar) tem paciência suficiente para perceber o que acontece e saber? E o Catatônico, num tempo outro, percebe o suficiente para saber-se numa terapia dessas? Eu gostaria de dizer que, de alguma forma, o saber-se numa terapia que é a última do caminho de muitos que vêm sendo observados e cuidados é importante. Esse saber aparece. Como voz principal numa cura? Nem sempre. A auto-sabotagem acontece: "É a última coisa que me resta. Que pena, pois quero permanecer assim". E eu digo "auto-sabotagem" assumindo a perspectiva de quem cura. O que na verdade pode nem ser meu ponto de vista. Digo assim pra facilitar as coisas. O saber pode ser voz principal numa cura sim. Pode ser uma boa parte. Dizem que na verdade não seria nada. Aqui importa o que eu digo. Aí, o que você diz. Se bem que nunca dizemos nada. Não eu - entre aspas. Saber é a coisa mesma que funciona. Ó tratamento tão percebido negativamente. A sua história faz qualquer um percebê-lo assim. É a violência que trás a perplexidade: ossos fraturados, fezes, urina, paradas cardíacas e morte. Além de ser instrumento punitivo. Terapia do bode expiatório. Dizem que a crítica é ideologizada. Será ideologia ser sensível à história? Uma boa fonte rende bons frutos reflexivos. O que importa, na verdade, de uma leitura, é isso: a capacidade que tem algo de fazer render frutos. A sementinha louca que dá frutos do inferno ao divã e para-além do inferno-divã. A crítica é para-além da ideologia. Há ideologia com certeza. E com certeza há muito além da ideologia (se ideologia existir). Sensibilidade. Funciona a ECT. É além de um saber tomar o choque que se vê funcionar num tomar o choque? É, é além. O saber não é nada? Assuma que não. Se o saber é pouco ou quase nada numa terapia dessas, a ordenança de coisa criada ao redor desse altar que é o tecnus é quem diz o que é falha pois não encontra ainda - não se encontrou nada ainda. E eu não falava de efeito placebo não, pro diabo com o placebo. É a questão mística que entra, e ela não é placebo. Deus quem cura. Se bem que, Deus cura mesmo não se acreditando que Deus cura: vai ter sempre alguém lá pra dizer que Deus curou. Indiscutível. Saber não é nada e o que importa é o meu (eu, médico) querer curar. Temos que fazer algo pelos pobres enfermos. O suicídio é ruim. Tenho toda uma noção do que é a vida. Aproveitem-na. Mas, na medida que não escolhemos, vale a pena morrer? E tomar choque, vale? E quando a escolha é saber escolher? Eu escolho morrer - por mim mesmo -, eu estou em condições de escolher? Há a possibilidade epistemológica disso? Deixam? Sem dúvidas que não. Há a crença no que se vê. O sorriso do desmemoriado (efeito colateral ao tratamento de choque) que tomou uma anestesia geral de cinco minutos me prova que a felicidade existe e que o agradecimento é verdade. Estava o sujeito em condições de agradecer? Quando há a possibilidade de Verdade num agradecimento? Dum sujeito que vive a vida como meta de Felicidade? Esse aí pode escolher saber-se agradecido? A razão é dada como possibilidade? A escolhar de escolher agradecer não é ela mesma uma teleologia social: "escolha agradecer"? São muitos problemas. Se eu aceitar a ECT não vai querer dizer nada. Onde estão os falatórios? Quem fica calado, escolhendo agradecer? Quem se mata nessa história toda? Quem ganha mais dinheiro? A minha clínica onde cada consulta custa R$700 ou a indústria vil da farmacologia e seus lucros de 25 bilhões de reais por ano? Ah, mas há a transcêndencia do dinheiro. Aí entra meu querer-curar a tudo e a todos de todos os meios possíveis. Não tem dinheiro que baste pra meu curacionismo.
.