quarta-feira, 4 de junho de 2008

Um Pouco de Artaud


"Em Artaud (...) tudo é obra, tudo tem literariedade e apresenta interesse, desde os textos mais acabados, mais próximos de algo com começo, meio e fim (como Heliogábalo), até as cartas, os fragmentos, as versões e até os apontamentos de cartas. Isso porque Artaud não buscava uma transcendência dada pela permanência da obra, pela sua inscrição e codificação nos anais da literatura, mas sim pela sua efetividade, pela expressão das suas idéias e conseqüente transformação em algo que as ultrapassasse e se inscrevesse, não na história da literatura, mas sim no real, na História como totalidade."
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"Artaud resolve mudar tudo, trocar o texto pela vida e vivenciar pessoalmente a realidade mítica que tanto o fascinava e que era tematizada na sua obra."
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"De volta a Paris, Artaud passa a expressar-se num tom profético e delirante, vendo-se como o emissário de catástrofes que se aproximavam: tanto de uma catástrofe no plano mundial quanto no da sua vida pessoal. Os fatos mostraram que não estava errado em nenhuma das duas antevisões. Essa é a tônica de Les Nouvelles Révélatíons de L’Être (1937), obra publicada sob pseudônimo, assinada apenas por O Iluminado, inspirada em estudos do Tarot e da Cabala, na qual ele abole sua individualidade, sua condição de autor, para ser mero veículo da palavra profética."
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"Para Foucault, Artaud virou pelo avesso, subverteu completamente as noções tradicionalmente aceitas sobre a relação entre criação e loucura: não são mais as obras dos loucos e malditos que precisam justificar-se diante da psicologia, mas sim a psicologia que agora deve tentar justificar-se diante de tais obras. Também no Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, Artaud comparece como paradigma (em companhia de Beckett e Schreber), sendo freqüentemente citado para fundamentar a noção de “esquizo-análise”, de “máquinas desejantes” e do antagonismo entre a paranóia da nossa sociedade e o esquizoidismo que busca a plena satisfação do desejo."
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"Quem tenta escrever à moda de Artaud só consegue produzir cópias empalidecidas, evidentemente epigonais. Artaud é único, irrepetível e principalmente irrecuperável; qualquer estudo acadêmico a seu respeito consegue apenas captar algum dos seus aspectos e facetas. O que ele nos deixou, o que ele efetivamente transmitiu foi, não um conjunto de ensinamentos ou de normas estéticas, mas sim uma atitude, uma postura de rebelião radical, de inconformismo e de recusa a compactuar com a nossa civilização."
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"E sempre é bom lembrar que a trajetória de Artaud, por maior que tenha sido sua consagração depois da morte, continua se defrontando com a perspectiva da derrota e do fracasso. Afinal, por mais que tenha contribuído para estimular o surgimento de tendências vanguardistas e libertárias, isso continua acontecendo dentro de um mundo e uma sociedade que, cada vez mais, se assemelham à imagem de mundo e de sociedade retratados em obras como Para acabar com o julgamento de deus e Artaud le Mômo."
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Fonte: "Nota Biográfica" no livro "Escritos de um Louco" de Antonin Artaud (Foi reunido pelo "Coletivo Sabotagem"? Talvez, não sei!). Acessado by Google.
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