quinta-feira, 19 de junho de 2008

Contra Neruda

Não Neruda, de jeito nenhum, absolutamente. Você disse certa vez que "Tudo está na palavra" (em "A Palavra") e não precisamos ir muito longe para afirmar exatamente o contrário que você. Já disseram que a psicanálise é impossível, pois permanece nas palavras. Já maldisseram as palavras. Dr. Lacan o fez, ele, o cara que gozava com as palavras, maldisse-as. O futuro de todas as coisas é o não-sentido do Real. Ele disse isso. Pra quem se interessa, isso é realmente significativo. A fonte? É melhor vocês irem buscar, mas foi praticamente num tom confessional e foi longe dos Seminários que fazia. Neruda, ao contrário de sua experiência, se acabássemos nas palavras estaríamos acabados ao ponto final. O silêncio e a piscada dum olho. O pensamento mudo, a-significante. Os movimentos corporais profundos e os neurotrasmissores. A penetração, o sexo. Não experimente isto pensando com palavras, provavelmente não vai dar tão certo. Mas experimente, antes, esquecer as palavras. Não é antes das palavras, nem depois, nem com elas, nem sem elas, é esquece-las completamente. Se falar, que fale. Se calar, que cale. É ser animal o suficiente para nem se dar conta das palavras. A desorganização completa como sêmen e óvulo, como Caos, para a criatividade. O Caos donde brota a vida é mais importante que qualquer gramática ou língua, Deleuze & Guattari um dia disseram isso, mas eles já não estavam viciados nas palavras como Neruda, como Lacan. Nosso estado humano é podermos devir à toda minoria que nos cerca, para além das palavras, sermos silêncio, chuva, sermos um dia na semana ou sermos simplesmente plantas.
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Imagens: Foto de Pablo Neruda e "Improvisation n. 23" de Wassily Kandinsky.
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