segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Madrinha

Assim que terminou a pintura, olhou para a parede pensando num é que tá boa a parede branca de cal onde naquele instante não era de todo branca, mas partes brancas, pois havia um cinza estranhamente coincidindo onde antes era lodo e mofo, mas isso só em algumas partes, nada que um juízo rápido orgulhoso possa perceber. Esse rapaz orgulhoso era um rapaz já visto por ali, já cruzara com aquela parede outrora mofada e verde várias vezes. A dona da parede outrora mofada e outrora verde era sua conhecida e conhecida da sua família, eu diria, inclusive, amiga da família, mas só diria  amiga porra nenhuma filha da puta que me paga porra nenhuma o que ela já deixou de saber um infeliz dia e nunca saberá. Pagava todo dia doze pois antes, no dia dez, quando recebia seu aluguel, dizia que tinha muita gente na fila não pego essa fila nunca esse povo espera que não tem ninguém que eu conheço que passe fome não conheço gente assim miserável espera um pouco. A dona da parede outrora mofada e outrora verde, conhecida da sua família, talvez até amiga da família, visitou naquela noite que virou o ano a casa do pedreiro trocou pratos com a mulher dele trocou receitas sabia que de pobre ou de quem economiza sabia que de gente com dinheiro essa puta me passa receita com peixe putaquecomepeixe desgraçada vem aqui e me dá sobra filha da puta ou de quem esbanja disse é muito bom conhecer você disseram devemo muito pra senhora viu a senhora é madrinha né à toa não terminou a frase seu marido veio lá de dentro pensando que talvez arriscado tira a porra do pirralho daí puta foda-se agora você cachorra então viraram o ano fazendo girar no mesmo eixo o velho revólver parecia um trinta e oito duas balas na cabeça na nuca por trás estourou a testa de muito perto a criança gritou cala o filha da puta correram apaga a luz duas da manhã foram embora na motocicleta ainda sem pagar quase roubada então colocaram a criança entre eles em cima do revólver guardado sob o banco.