O título sem dúvida é muito mais amplo do que pretendia falar agora: As Ilhas de Identidade que são os amigos. Li esses dias uma recomendação pra não se entediar sendo o mesmo sempre: mude! mude de amigos, de lugares pra onde sai, de livros, de um monte de coisa, era o conselho. Achei alguma coisa na hora, como era divertida a idéia de se livrar de tudo. Até concordo. Mas estava num dia menos radical do que geralmente são os dias nos quais eu estou e pensei de maneira original que, não, não precisa ser tão radical. Nem tão original - sempre. O que dói em querer mudar é que, sempre que se tenta ir além, se bate em alguma coisa que nos lembra que somos algo à vista. O plano todo traçado, novos interesses e... não, não quero mudar todos os amigos. Aí vem que toda ética é uma política, o projeto não pode ser só da pessoinha que quer mudar, ao invés do radicalismo de mudar e jogar tudo fora, o radicalismo de mudarem todos - juntos. O amiguinho dela chega e diz publicamente: "Namorando, quero só ver!". É uma Ilhota de Identidade, é o imã do inventário do qual não se pode desviar nem sequer alguma linha, senão policio. O humor perverso que é, na verdade, mais que humor, é a vara que sempre tenta fisgar o peixinho minguado que somos nós frente à milhões de policiais que confundem cuidado com policialmento. E olhe que nem tem necessidade de jogar fora esse sujeito - se bem que, hoje, eu estou mais radical do que quando comecei a pensar nisso e diria que, sim, jogue fora esse sujeito -, pode-se agrega-lo, dizer-lhe: "Amiguinho, menos violência, menos identidade, nem todo humor é bem vindo, mais amizade e mais impulso, menos cerco, menos cerco, mais liberdade". A idéia é destruir essas Ilhas de Identidade que são os amigos e sugerir aos amigos - os mesmos amigos de antes, os mesmos que são as Ilhotas, ou outros até, mas que esses outros não sejam eles mesmos outras Ilhotas dessas de Identidade - que sejam mais mar que pontos no mar: Amigos, façam parte do oceano, não sejam estradas, ilhas, caminhos, sejam nada perto da gente, liberem a nossa identidade, deixem eu comigo, sejam menos Ilha para serem mais essa dimensão que é mais livre, o mar. Até a praia, que pelo menos molha os pés no mar, mas pode acabar sendo destruída, pois que não impede nunca o mar de modo forte o bastante. Não gostamos de Ilhas. Basta a minha memória.
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