Fala-se - e muito - acerca das possibilidades para o sujeito de metamorfosear-se e de prováveis consequências éticas deste ato. Quando eu era criança ouvia Raul Seixas e ficava me questionando sobre o que seria uma metamorfose ambulante. A imagem era de alguma coisa que mudava e andava mudando, era como um quadro de Salvador Dali que se mexia - eu via a obra dele no começo da minha adolescência. Essa era mais ou menos a imagem que vinha na minha cabeça, uma coisa se transformando. Hoje, eu vejo ainda essa imagem de quando criança, porém Lula me irritou um pouco e dispersou essa minha lembrança imagética infantil. Talvez valha a pena pensar nisso. Ouvi-o dizer algo como o refrão da música de Raul: "eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/ do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Foi mais ou menos algo assim, Lula falou o meu refrão pra fins políticos, pra justificar suas obcenidades. Que coisa... logo eu, que critico o absurdo das pessoas toda hora apontarem as incoerências dos outros, criticando a incoerência de Lula - que foi admitida e apontada por ele quando cantou esta música. Mas a questão ética entra justamente aí. Acho uma maravilha mudar, acho uma maravilha mudar em zigue-zague, mudar, transformar-se, não cristalizar, se movimentar, qualquer coisa nesse sentido. Mudar de repente também vale a pena. Mudar devagar, melhor que não mudar. O sentido de cobrarem ética dos que mudam, é que os que cobram acham qualquer mudanças, mudanças em geral, odiosas e perigosas. Segurem aquele rapaz, ele muda! E Lula? Ele muda, canta a música, solta umas piadinhas, e eu aqui, criticando sua mudança. Se eu pensar que a mudança, essa palavra sozinha, que podemos entender de maneira pura, é importante, vou estar sendo um ridículo se não admitir que não ligo pra isso. Não ligo pra mudança. Ligo pra mudança que acontece MAIS alguma coisa onde a mudança acontece. A coisa ética entra aí, dá pra entender? A mudança é importante e vital, mas nunca deve ser pensada descolada de seu terreno. Qualquer mudança é encarnada numa realidade qualquer. Pensar assim é o primeiro passo pra entender o sentido ético de uma mudança. Mudar e arrastar sua rede, todas as coisas e todos os seus amigos pra o inferno junto com você talvez não seja tão interessante assim. Longe de receitas, eu proporia pequeninas reflexões. Uma mudança e onde ela ocorre. Lula e suas mudanças cínicas na nossa política cínica, realmente, exijo Ética e cuidado com suas metamorfoses, besta ambulante.
A ética surge necessariamente porque nenhuma mudança é pura, sempre se conecta a alguma coisa a mais do que a coisa que pensa mudar sozinha. O cuidado ético é esse jogo de cintura que se poderia ter nas metamorfoses. Longe de produzir um paranóico, penso sugerir um sentido qualquer pra questão da comunidade, longe, isso sim, de um hiper-individualismo metamorfoseante - nauseante..
Imagens: A primeira é A Metamorfose de Narciso (1937) de Salvador Dali. A segunda é Untitled (1971) de Joan Miró.
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