"A relação do aforismo com o humor e a ironia. Os que lêem Nietzsche sem rir e sem rir muito, sem rir frequentemente e, às vezes, com um riso louco, é como se não lessem Nietzsche. Não é verdade somente para Nietzsche, porém para todos os autores que fazem precisamente este mesmo horizonte de nossa contra-cultura. O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual se vive a necessidade de colocar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. (...). O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária, é o que sai dos grandes livros, no lugar das angústias de nosso pequeno narcisismo ou dos terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isto "cômico super-humano", ou melhor, "palhaço de Deus". Há sempre uma alegria indescritível que brota dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas desagradáveis, desesperadoras ou terrificantes. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode rir senão quando se embaralham os códigos. (...). Acontece frequentemente a Nietzsche de se encontrar diante de uma coisa que ele acha tediosa, ignóbil, enauseante. Bem, quanto a Nietzsche, isto o faz rir, ele faria o mesmo hoje."
(DELEUZE, Gilles. O Pensamento Nômade in Por Que Nietzsche? Ed. Achiamé)