domingo, 11 de maio de 2008

A Obra para a Hermenêutica e o Complexo de Dupin: Pré-Produtividade

A Interpretação: O que se quer dizer? O nosso viver é a partir sempre da busca do oculto. É quase essência humana: descobrir coisas. O Complexo do Cientista ou o Complexo de Sherlock Holmes ou, para ser mais exato, ainda o Complexo de Dupin - elevando à E.A. Poe e acabando com o plágio holmesseriano. Nossas relações também são assim. Perguntamos "o que você quis dizer com isso?" pois sabemos que sempre fazemos joguinhos do ainda-resta-algo-por-dizer (sabemos mesmo sem saber que sabemos que fazemos esses joguinhos).
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A produtividade: O que fazer com isto? Ainda quase prefiro as saídas heiddegerianas: O silêncio... A Poesia... Viver estas coisas. Dialogar muito. Mas trata-se de julgar menos e fazer mais. Conversar, amar, trepar; a amizade como saída à interpretação. Mover-nos e incitarmo-nos antes de perguntarmo-nos: O que isso quer dizer? A Hermenêutica e o Complexo de Dupin constituem focos/fontes de anti-paixão. Pois o próprio estatuto deste Complexo institui a busca e a descoberta como mecanismos básicos de ação. "Eu sei o que pensas" ou "Eu sei a origem do teu mal" ou ainda "eu sei como estás, como sentes, como é ser assim" pressupuseram para existir uma suposição sobre uma alteridade: furo ético! Acabar com o Complexo dupineriano. Ele sempre diz com sagacidade saber já algo sobre o que ouviu. Se não disser a verdade, ao menos sabe o caminho desta. Complexo de Dupin. A verdade ri dele! Como diria meu amigo Pedro numa moral duma história contada: A verdade é independente das mentiras de fulano!
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O trecho transcrito a seguir ilustra Dupin dialogando com o chefe de polícia local. O policial veio "consultar-lhe" sobre um caso "singular", na verdade, um caso que não conseguia descobrir a verdade e resolver o problema. Na narrativa, o policial é motivo de "chacota" por parte do Narrador e por parte do detetive Dupin:
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"- A coisa toda é tão singular...
- Simples e singular - comentou Dupin
- A questão é tão simples e, no entanto, nos confunde inteiramente.
- Talvez seja a própria simplicidade da coisa que induz vocês ao erro - disse meu amigo
- Mas cada bobagem que você diz! (...) - soltando estrondosas gargalhadas
- Talvez o mistério seja um tanto simples demais - falou Dupin
- (...) Mas de onde você tirou uma idéia dessas?
- Talvez seja um pouco evidente demais
- [risadas]. Oh, Dupin, você ainda vai me matar de tanto rir!"
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Para além do policial que é ridicularizado por Poe-Dupin (o sábio ou o cientista ou, ainda, o próprio Complexo ele mesmo), proponho ler o policial como encarnando a Verdade e a Ironia-da-Verdade (isso aí, definitivamente, já tem ironia!) versus o Dupin-Hermenêuta, solvedor dos mistérios... - A prepotência-arrogância é de dar gargalhadas.
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Há ainda uma outra leitura possível da historinha... Pensar o policial como um consultante de uma clínica psicológica qualquer (mesmo que seja alguma prática não verbal - há sempre algo por interpretar, nem que seja o corpo) e pensar Dupin como o Sujeito-Saber (nada de sujeito-suposto-saber, porque ele sabe - ou pelo menos acredita tanto nisso que acaba sabendo de verdade). Um que quer saber algo de um segredo e outro que vai descobrir o segredo...
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