sábado, 15 de março de 2008

O Suicídio de Deleuze

O agenciamento enunciativo num momento não se apega a nenhum "eu" que movimente-se na sopa polimorfa desejante desse ato. O individual diluído conta, faz-se presente, no momento em que o desejo facista identificatório surge. Mas inevitavelmente esse olhar, falsamente fenomenológico, se é cego de si para o outro - dirá de si para si! Não vê o graneleiro imenso, infinito da imersão do eu. A autoria egológica aparece então da cegueira, da ignorância, do facismo, do desejo de não ser solitário - de facismo transvestido de carência para um (falso) ser da coletividade. Mas surge! Olha lá, um eu!
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Vamos à tese de que ninguém é insubstituível. Talvez a tese já encontre problemas em sua formulação. Sua ligação com um sistema de produção em linha, de um sim ao lucro, supõe que uma tarefa possa ser cumprida por qualquer um, em qualquer momento. Pode ser realidade, porém é verdade não-axiomática sujeita à uma arbitrariedade cultural. O agenciamento de enunciação vem a ser um coletivo de máquinas acopladas umas às outras - produzindo! Uma vez uma máquina esteja desconectada, surge outra máquina produzida e produtora de desejos. Há aí desejos que são previamente desterritorializados para então serem territorializados. Há uma infinidade de enunciações disponíveis à criatividade, pode na história nunca ter havido isto ou aquilo mas, sem dúvida, os múltiplos caminhos do nosso irmão-zão já haviam esperado tal coisa.
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Há caminhos disponíveis que o produtor - que é múltiplo - pode realizar. Há espaço de diferenciação de produção, apesar do anúncio criativo estar disponível previamente - pelo seu conteúdo de infinitudes - aos sujeitos.
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[Essa questão do já determinado à priori me remete ao texto de Borges chamado "A Biblioteca de Babel", do livro Ficções. Merece um desenvolvimento posterior...]
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Houve um suicídio - caminho burocrático de negociação com o Poder, sempre negociado radicalmente. Disponível na escritura política histórica de maneiras mil - de caricato, delírios auto-destrutivos ou motivos heróicos -, sempre sociais. Há balanços no processo agenciatório produtivo, há lamentos! Mas a enunciação não vai parar. O tempo é rizomático e, por isto mesmo, nunca idêntico - nem sequer reconhecível, de nem ser perto de ser parecido!
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Há enunciações sempre diferenciadas.
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Ele transmutou-se, falsificou um "eu" - delírios de eu -, gritou que rodava sozinho. Acertou pois, sempre que podemos - e isso não é crítica de afetos, porém antes fria - somos cínicos (no mal sentido) e nos amarramos - pés e mãos e o que der - à nós me aos nossos valorzinhos singulativos. De Verdade moveu a morte ao lugar de produção prá gozar. Não lhe faltava nada! Desejo produtivo e Final. Produziu - e nunca sozinho! - um final impossível.
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A imagem está em movimento. Como o agora é sempre de outra cara, todos são insubstituíveis, pois apesar do espaço disponível previamente ser dado, os sujeitos históricos não dominam o rizoma tempo-história. Há sempre novidade e sempre possibilidades de revolução - sempre há linhas de fuga!
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Deleuze, o nome identificatório de nossa neurose social que habitava o corpo sem órgãos do filósofo que vi uma vez sorrindo, rindo, permanece no além do além do imaginário de nossa diária esquizofrenia. Escorregou pra dentro do buraco quando dançava na beira. Não há nunca final. Houve uma jogada de Poder e houve uma revolução agenciada singularmente - individualista. Ao mesmo tempo que não! Um desejo se apaga, mas o coletivo de desejo que animou/anima, continua girando, não pára! Aí sem o sujeito querer - ou querendo! Pois, inscrito na história, há possibilidade duvidosa de se auto-engendrar sumiço. O eu está amarrado a tanta coisa que some. Ao mesmo tempo que nunca sumirá. Permanece sem órgãos: desejando, desejando, desejando - mas some!
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Paradoxalmente, de maneira encantadora até, continua produzindo, amarrando desejos.
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