domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Cinismo (ou Os caminhos para se chegar ao Cinismo) - Parte II

Só pra ficar mais claro, falei antes da concepção de Sujeito do Inconsciente, do corte, da esquizo que há entre intencionalidade da consciência e o equívoco que, por vezes, cometemos. Esse equívoco trás uma intencionalidade, a do inconsciente. Ou seja, há uma intencionalidade que nos transcende. Há algo de compreensão que nos escapa. Aí surgem as dissonâncias que eu comentei. Nada mais - e não é algo simples - do que rupturas entre o que se quer fazer, o que se acha que é, com o que se fez e como você acabou aparecendo ao mundo. E disse também que isso aí incomoda, tem umas coisas no desenrolar dessa história aí que realmente constrangem e deixam o cara incomodado. Vou voltar a isso outro dia, em outro Post!
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Agora coisa nova.
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É sobre o CINISMO. É o seguinte... Esse outro que eu falei, o do equívoco, sem dúvida também faz parte de você. Diriam alguns que É você. Sem dúvida que sim. E o que é a responsabilidade? Assumir o que se faz. Assumir esse ato como pertecente a você. Trazer a si um ato realizado. Não seria complexo de culpa, cristão, deprê, fatalista, nem nada nesse sentido. É implicar-se no ato realizado. É uma tomada de posição onde há Ética. "O que eu fiz, fui eu que fiz" (foi sem querer? Aí é onde eu diria que surge a problemática! E isso dá pano pra manga! Mais na frente eu volto a isso, ainda nesse Post).
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É a imersão numa situação existencial radical: ter algo fora do que socialmente - politicamente, economicamente, espiritualmente, etc - se aceita como o limite do eu - a consciência! E ainda assumir isto? É! (E agora temos pistas do cinismo...) Mas essa situação, essa relação existencial, esse saber que há inconsciente em si, não significa tornar uma neura o relacionar-se com o inconsciente. Mas pode abrir o sujeito à outras esferas de significação, re-significação, que não estão à primeira vista. Não é misticismo - pode vir a ser! - mas, antes, é uma tomada Ética de posição (como já dito).
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Não tem como não lembrar de Nietzsche(!)... É praticamente sobre o amor-fati nietzschiniano que estamos falando, conceito central de algumas obras dele (talvez de todas?) que consiste em um dizer-sim à vida. Dizer sim apesar do que possa haver. Não é nem de perto conformismo, mas é nessa relação que eu comentei, a do sujeito para si mesmo, dizer-sim. É sobretudo AMAR a vida. E não passa perto de otimismo barato. Dá pra entender isso?
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Talvez o cinismo comece justamente aí. Depois de saber que há uma intencionalidade não-consciente, depois de discursar sobre essa "verdade-oculta", depois de habitar a retórica e os caminhos e descaminhos do inconsciente, há a negação. Ou há a mentira. A negação em alguns casos, é caso de mentira mesmo. Sem dúvida. Bem vindos ao círculo cínico! (Já parafraseando Ricardo Goldenberg na sua obra "No Círculo Cínico ou Caro Lacan,. por que negar a Psicanálise aos canalhas?" - aliás, recomendada!)
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Se faz, vê-se fazendo, vê-se o feito... E aí nega-se! Cria-se uma história! E se acredita nela! E há também uma negativa que não é consciente. E aí que o bicho pega...
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Alguns já disseram ser, depois de uma merda feita, a historinha que nós criamos uma defesa cognitiva. É também uma defesa cognitiva. Talvez pior cinismo esse. Mas há historinhas criadas pra explicar uma merda feita que não passam no registro da consciência. É um caminho - esse aí -para uma defesa frente uma responsabilidade. Sem dúvida... Mas é uma fuga. Assim como a defesa cognitiva, essa fuga inconsciente também é uma fuga. Tautologia fundamental. E a valoração dessa fuga, no meu texto, é NEGATIVA. Tem valor negativo.
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Qual seria a saída? A saída é o espelho. O inconsciente é inacessível. Mas há pistas. Os outros são boas pistas. O social é uma boa pista. Nossos atos conseguem falar por nós. O inconsciente se comunica, MOLHA as coisas ao nosso redor. MOLHA TUDO. É querer ver. Ou pelo menos, se esforçar para ver. Não é neurotizar tudo o que se faz. Mas numa situação crítica, é ter a decência de se observar, observar o que se faz, observar o que se está fazendo. Deu pra mais ou menos fechar o raciocínio?
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Sem dúvida, às vezes não estamos totalmente claros para nós. Mas há pistas, sempre há. Sem dúvidas. Além, claro, de recorrer a um profissional - psicanalista, psicólogo. A confrontação que se tem consigo mesmo é radical. Um bom profissional não mete a boca no seu discurso. Mas lhe confronta com você mesmo.
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A questão do "foi sem querer" pode aparecer aqui. Não há como valorar uma intencionalidade inconsciente assim, aqui, agora. Dizer: "Foi por querer sim!". Não podemos falar de razões do inconsciente de modo claro, aberto. O que podemos fazer é apontar pistas. Supor.
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Eu falei ali do ESPELHO. Olhar-se no espelho pode dar pistas de para onde estamos indo. Agora, para não ficar confuso, vale duas linhas sobre o que significa olhar-se no espelho. Significa ter pistas sobre si. Pois, necessariamente, esse espelho não é claro o suficiente - e nem nunca será - para refletir o que se é. Teremos sempre pistas sobre o nosso Ser. Mas não apontamentos objetivos, diretivos, caminhos traçados sobre quem se é. Mas sem dúvidas podemos nos esforçar para nos esclarecermos a nós mesmo. Afinal de contas, tem mais alguém que com certeza vai ficar conosco o resto da vida, senão nós mesmos? É melhor aprender de longe, ter noção de quem se é (um pouquinho pelo menos), do que conviver o resto da vida com um estranho.
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Fazendo isso, acredito eu, talvez deixemos de ser um pouco cínicos.
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Mas tem mais coisa. Muito mais coisa... Eu volto depois com mais coisas...
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Abraços!