Pois é, eu tava ali, em pé, dentro do ônibus, claro, mas tava em pé ali perto da porta de trás, a de saída, tava pra sair, daqui a pouco era minha parada, entendeu? Aí, resultado, tava olhando a paisagem porque, apesar de extremamente desorganizada, minha cidade é bonita. Sim, eu tava ali na Av. Guararapes e o ônibus era um Setúbal-Cde. da B. Vista. Enquanto eu olhava, olhava o rio, os pipoqueiros, os caba que vende pipoca à cinquenta centavos, aí eu vi um caba vestido que nem eles, os pipoqueiros que tavam ali no meio da avenida. Na calçada que fica no meio da avenida, justamente pra venderem a pipoca pra galera de dentro do ônibus. Sim, a cena foi a seguinte... a cena principal, porque a cena tá sendo tudo isso aqui que eu to tentando lhe dizer, a cena foi assim, passaram um olhar. Um dos caras, como eu já disse, que tava parecendo um dos pipoqueiros, se aproximou do ônibus, do lado esquerdo do ônibus, esquerdo de quem tá na posição do motorista, mas não era perto do motorista não, era lá atrás, perto da porta de sair, acho até que já disse isso, bom, aí, resultado, o cara veio olhando pra o senhor que tava falando no celular. Esse senhor tava com o celular na orelha esquerda. Pois então, o caba veio olhando pra esse senhor, pra o celular desse senhor, sequer olhou pra galera em volta dele, já bateu os olhos no senhor do celular e no senhor do celular ficou com os olhos, mas só até passar pelo ônibus. Passou pelo ônibus, foi pra traseira do ônibus... sim, muito importante, isso tudo foi muito rápido cronologicamente, mas não pra mim, que acompanhei tudo devargazinho, e o ônibus tava parado viu? Num sinal, por isso que tô dizendo que foi rápido. Não que sinais sejam rápidos, alguns são, outros não, mas isso, agora, não quero comentar - não mais. Bom, continuando, o cara que passou pelo ônibus em direção à traseira, esse cara, ele voltou coladinho ao ônibus. Deu uma olhada, uma outra olhada, examinou o senhor, outra olhadela, se ligou que, como a janela tava aberta atrás desse senhor que tava sentado, colado à janela que tava fechada, tinha que pegar por trás. Examinou, isso, uma última vez. Fiquei pensando, rapaz, o cara tem prática de dar o bote, quando uma mão vai assim em direção a alguma coisa, do jeito que tava, ou ele enfiava a mão pela janela atrás, mais pra diagonal inferior esquerda, do senhor, e enxergava mesmo com suas mãos, ou olhava pra examinar. Era a olhadela ou o bote. Ele olhou aquela última vez que eu já contei agorinha, pronto, olhou essa vez e deu um bote. Deu um bote no celular desse senhor, mas o bote não foi ligeiro, ele ficou tentando puxar ainda. O velho puxou de volta. Segundo esse velho senhor, que, na verdade, não era tão "senhor" assim, é mais porque, às vezes, sou realmente educado, bom, esse senhor/velho-maneira-de-falar puxou de volta. O cara que parecia um pipoqueiro no modo de vestir, mas, naquele momento, não no modo de ganhar dinheiro, voltou como quem vem pra traseira do ônibus, bem coladinho ao mesmo. Digo vem porque acompanhei a cena pela diagonal inferior direita desse senhor, de cima, porque eu estava em pé, como, aliás, já disse. O senhor disse, filho da puta! Disse várias coisas. O povo ao redor também disse, reclamarem justiça, xingaram de maloqueiro filho da puta também, levantou-se, inclusive, a hipótese que os pipoqueiros tavam dando cobertura ao cara que olhava os celulares da galera e costumava dar o bote, talvez, porque se pareciam no modo de vestir. Então, além do modo de se vestir, se essa hipótese estiver correta, eles se assemelhariam no modo como ganham o dinheiro. Eu ouvi tudo e fiquei quieto, eu vi tudo. Mas, diferente dos outros, me assombrei com a lentidão da cena e, como numa incongruência irresistível, não reagi - não que eu fosse reagir ao assalto, ao furto, ao bote, porque nem era comigo, digo reagir num sentido lato. Vi tudo muito lento, num outro tempo, mas o tempo de reação, contado cronologicamente, foi muito rápido. Parecia um daqueles sinais que nem demoram, nem são rápidos. Durou, inclusive, muito menos que um sinal. Começou depois que o sinal fechou, terminou antes do sinal abrir. Então eu vi devagar mais foi tudo rápido. Vi em camera lenta mas era um video-clip. Cara, provavelmente o cara do bote viu as coisas demoradas, será? Bom, não vale a pena, agora, pensar nisso. Mas eu vi tudo. Olhei os olhos que olhavam pro celular. Olhei tudo em camera lenta. Vi direitinho quem era o cara, pensei, inclusive, no que ele pretendia: "mas será a minha nóia? provavelmente". Não que se eu respondesse que "não, não é minha nóia, o cara vai roubar mesmo!" pra mim mesmo, eu fizesse algo, porque, como eu acabei de dizer, parece que foi tudo muito lento, tempo o bastante pra pensar, mas, na verdade, foi muito rápido, porque não fiz coisa alguma. Vi tudo isso mas não fiz absolutamente nada. A grande nóia foi essa, essa diferença dos tempo. O velho disse, mas não ouvi, mas fez um gesto como de quem faz, que, se pudesse, que se tivesse visto, meteria uma chave de fenda, uma faca, na mão do cara, aí fez o gesto: pow! Depois de um tempo, sim po, o ônibus já tinha dado a partida, já tava longe, tava atravessando uma das pontes, a ponte que fica entre a Av. Guararapes e a Av. Cde da B. Vista, aí ele - o senhor/velho - fez gesto, mas não ouvi o que foi dito, que, se pudesse, daria um tiro no canalha, maloqueiro filho da puta. Eu, do meu lado, pensei em que fecharia a janela, daria um chute na mão do cara, sei lá, coisas que eu to falando agora são pensamentos de milésimos de segundos, passam como quem dá um bote. Sim, o velho/senhor, independente de, imaginariamente, ter conseguido dar um tiro ou enfiar a faca no cara, se ele tivesse podido na real, realmente tivesse ali disponível pra isso, será que faria? Será que, como eu, ele só ficaria vendo? Eu e o velho, vimos tudo muito devagar? Bom, talvez ele também não fizesse nada. O que não o impede de pensar no que faria.
E tem muitos outros detalhes, pensamentos meus e coisas que outros disseram mas, sinceramente, acho que basta.
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