A experiência surge como a radicalização do programa em formato reality show: uma verdade só para o indivíduo. A lógica do Show de Truman é a ambição e, mais caracterizadamente, por parte do agenciamento que produz o programa, o grito desesperado da sinceridade. Explicamo-nos: nesse tipo de formato, o indivíduo convidado a participar, poderia modular à sua vontade seu comportamento. Mais comumente, faz teatro no limite do ordinariamente controlável: algumas caras e algumas bocas, um jeito aqui e ali, encenado, de se comportar. Há técnicas incorporadas ao formato para inibir um possível - e provável - fingimento: técnica discursiva, chamar de jogo e salientar o aspecto de que se trata de um jogo e as pessoas devem jogar. Logo, ninguém foge à regra quando simula, já que é isso o nome da coisa, um jogo, um simulacro. De maneira satírica, há, inversamente a essa técnica, a incorporação de uma tecnologia: o detector de mentiras. Existe, por parte dos envolvidos nessa produção, uma busca de verdade. Aí entra a radicalidade da experiência Truman, buscar a verdade torna-se erijir uma mentira a mais perfeita possível. Como? Capturando - adotando é o termo juridicamente adotado aqui - uma criança desde o seu nascimento. Um filho legítimo de uma pessoa jurídica. Dá até para imaginar: Filiação? O CNPJ de papai é...
.
Dessa forma o sujeito nascente torna-se um sujeito verdadeiramente vivente, para além do teatro da superfície. O sujeito ganha profundidade aparente, porém completamente escancarada para quem sintonizar o canal. A vida verdadeiramente vivida numa mentira dum livro aberto. Com o nome do herói foi feito um trocadilho: True Man - Truman. Trocadilho significante do marketing perverso.
.
A bolha em que vive é um sistema vivo e muito bem articulado, a hierarquia aparece com cheiro de novidade contraditória. Ao mesmo tempo em que Truman, de um ponto de vista, é o centro do circuito, organizando todas as linhas do sistema para si, poder-se-ia pensar que ele é o topo da hierarquia; ao mesmo tempo, se trata do ponto mais baixo da hierarquia: é controlado por todos os lados. Qual o papel da sua individualidade e do sistema, do meio? Antes, como se trata de um meio radicalmente estanque, no sentido de pouquíssima mobilidade, tanto de forma estrutural quanto na forma dos próprios atores psicossociais, por tratar-se, inclusive, de uma ilha - principalmente? -, evita-se troca de vizinhos, troca de mulher, troca de chefe. A individualidade é preferencialmente mantida ocupando o lugar na estrutura funcional, há pouca mobilidade. O sujeito escolhido para tal coisa é provavelmente mantido ao longo do tempo, evitam-se viagens, evita-se mobilidades, trata-se de uma ilha na qual se deve evitar qualquer convite do exterior, ao exterior. Por essas pistas e outras, temos uma armação de savana, radical, dura e extremamente violenta, mantendo todos os personagens, inclusive o próprio Truman, presos à identidades sufocadas. Ao mesmo tempo em que se provoca uma mobilidade, a fim de dramatizar, romancear a estória, temos uma tentativa de controle do que, de forma minuciosa, deve advir da subjetividade Truman.
.
O que acontece, exatamente, que controla esse movimento de mudança? A base de tudo o que acontece aí não é a adoção do garoto, não como argumento que segura toda a experiência do reality show. Há a confiança numa tecnologia psicológica por parte do Criador - em maiúsculo, para marcar a ironia com Diretor/Deus. Como se trata de um programa precisa-se de um cenário qualquer. O céu é artificial, mas o fim de uma rua pode dar numa parede? Como dito pouco antes, a bolha é, então, uma ilha. Literalmente, cerca-se um pedaço de terra com água. Água traumática. Com função mantenedora da ordem, do ordenado, ou seja, de Truman (true-man) dentro dos limites do programa, há um trauma em sua infância. Tecnologia behaviorista. O mar, o barco, depois da morte do seu pai, é entendido psicofisiologicamente como ameaça. Há pânico quando próximo a essa imagem. As questões aeronáuticas são mantidas longe dele pela mídia terrorista; em todos os níveis, inclusive, no nível individual - além do social, do macro-marketing. Mas o cerne do argumento é o trauma do mar, meio mais fácil de locomoção para sair da ilha - do cenário. E a base, o que por sobre será construído todo o programa, todo o prédio hierárquico, dos tijolos reais, atores (braços do Criador-Diretor) aos satélites de transmissão, é a contribuição fundamental do Condicionamento.
.
A desordem é entendida ambiguamente ao longo do filme. No início, produz-se um trauma, gera-se uma desordem psicológica no "ator" principal (no sentido irônico ou no sentido sociológico), há desordem, pois perder um pai é desestabilizante. Essa desordem é irônica pois não é autogerativa, ou seja, não é imanente ao sistema mesmo de produção/destruição, é criada via externa pelo diretor, justamente com a idéia de formar uma ordem. É aparentemente idêntico: ciclo ordem-desordem-ordem... Mas é mais psicanalítico que ecológico. É a partir de algo externo, não autogerado. Vem de uma ordem que transcende a coisa que aconteceria por si própria, tal qual o modelo sócio-ecológico faria: autogerar-se. Acontece que o Criador-Diretor dá a ordem para a desordem, a fim de produzir subseqüente ordem. É um sistema linear - diferença fundamental - contra um sistema aberto, que seria essa noção macro de grupos observados pela Etologia. Há uma finalidade aparente no movimento externo quem vem do Diretor. É externo à Coisa. É desejo que, a partir da falta, produz a busca do que já o transcendeu desde o início: busca incessante, objeto a, externalidade psicanalítica. A natureza e os sistemas articulados nos estudos apresentados por Morin são autogerativos. O sistema-floresta, o sistema-savana, apesar das diferenças performáticas e afetivas dos indivíduos dali, é imanente. Tem produção independente de um meio externo. O que é demonstração mais apurada possível, no filme, desse ciclo ordem-desordem imanente, desse sistema caótico não-linear, é a ordem das coisas caindo por terra - literalmente: um refletor que cai, um trânsito notadamente artificial, um elevador sem um elevador propriamente. Não só isso, mas a desconfiança que é gerada, a menina que foi o primeiro amor, o pára-quedista louco, a cartografia realizada de forma fascista: "Só resta procurar... no mar!", lugar mais improvável para um traumático habitar.
.
Truman rompe com o dogma behaviorista, apesar de todas os reforços para o medo persistir, o sujeito true-man foi mais longe, em busca da verdade, foi para além do que estava circunscrito a si e traumatizado e mantido mecanicamente, foi além da parede psíquica que o barrava, foi para além de todo o caos que foi organizado exteriormente - psicanaliticamente - pelo Criador-Diretor. Há duas camadas de ação nesse filme: 1) produção artificial de ordem-desordem, por parte do agenciamento Criador e, necessariamente, produção de uma diferença sem cor, que, com o perdão da contradição aparente, é uma diferença que não escapa de produção do mesmo: processo empobrecedor. 2) produção autogerativa do ciclo ordem-desordem, caos imanente e criativo, não necessariamente mantenedor da mesma conjuntura, mas aberto a possibilidades novas, que escapa ao controle de um indivíduo qualquer, mesmo do controle de quem habita a escala máxima da pirâmide estrutural. A estrutura é móvel - necessariamente -, não se fixa a uma identidade: diretor que perde o controle, só resta ceder e desligar a transmissão, para além de seu desejo.
.
Está colocada então, de forma radical no filme, a diferença entre um controle individuado do sistema, encarnado na figura do Diretor, ele, a figura psicossocial diretor, que controlaria, de fora, ciclos de estabilidade-instabilidade, e um controle sócio-ecológico do sistema por parte dos fenômenos do que o próprio sistema, como estrutura, proporciona. Retro-alimentação desindividuada.
.
Todo sistema imanente nunca permanece estabilizado. Podemos dar como exemplo o próprio Capitalismo. Tem como lógica de sua "essência" um movimento de desterritorialização absoluta, tal qual nos apontam Deleuze & Guattari ao longo de toda a sua obra, o que significa que há desenfreada expansão do Capitalismo em busca de estados de coisas dito intocadas. O Capital buscaria sempre o que lhe seria externo para fazer dele um código interno ao próprio sistema. Capitalismo como sistema imanente é justamente territorializar coisas que, antes, não eram de seus códigos. A bolha da ilha, como grupo psicossocial, logo, imanente, autogerado, sofreria um movimento de criatividade, ou seja, diferença, a partir da re-significação das coisas que lhe pertencem com a soma de coisas que não eram suas, destruição de coisas e criação de novas. O grupo de macacos agencia o mar em sua culinária: expansão de um sistema imanente em direção a uma natureza - parte dela -, antes, intocada. O mar e os pequenos animais, agora, comestíveis. O sal e a nova caça são filhas da novidade anárquica da destruição-ordenação autogeradas.
.
Com a contribuição de Pedro Holanda (pedrowh.blogspot.com).
.
.
Dessa forma o sujeito nascente torna-se um sujeito verdadeiramente vivente, para além do teatro da superfície. O sujeito ganha profundidade aparente, porém completamente escancarada para quem sintonizar o canal. A vida verdadeiramente vivida numa mentira dum livro aberto. Com o nome do herói foi feito um trocadilho: True Man - Truman. Trocadilho significante do marketing perverso.
.
A bolha em que vive é um sistema vivo e muito bem articulado, a hierarquia aparece com cheiro de novidade contraditória. Ao mesmo tempo em que Truman, de um ponto de vista, é o centro do circuito, organizando todas as linhas do sistema para si, poder-se-ia pensar que ele é o topo da hierarquia; ao mesmo tempo, se trata do ponto mais baixo da hierarquia: é controlado por todos os lados. Qual o papel da sua individualidade e do sistema, do meio? Antes, como se trata de um meio radicalmente estanque, no sentido de pouquíssima mobilidade, tanto de forma estrutural quanto na forma dos próprios atores psicossociais, por tratar-se, inclusive, de uma ilha - principalmente? -, evita-se troca de vizinhos, troca de mulher, troca de chefe. A individualidade é preferencialmente mantida ocupando o lugar na estrutura funcional, há pouca mobilidade. O sujeito escolhido para tal coisa é provavelmente mantido ao longo do tempo, evitam-se viagens, evita-se mobilidades, trata-se de uma ilha na qual se deve evitar qualquer convite do exterior, ao exterior. Por essas pistas e outras, temos uma armação de savana, radical, dura e extremamente violenta, mantendo todos os personagens, inclusive o próprio Truman, presos à identidades sufocadas. Ao mesmo tempo em que se provoca uma mobilidade, a fim de dramatizar, romancear a estória, temos uma tentativa de controle do que, de forma minuciosa, deve advir da subjetividade Truman.
.
O que acontece, exatamente, que controla esse movimento de mudança? A base de tudo o que acontece aí não é a adoção do garoto, não como argumento que segura toda a experiência do reality show. Há a confiança numa tecnologia psicológica por parte do Criador - em maiúsculo, para marcar a ironia com Diretor/Deus. Como se trata de um programa precisa-se de um cenário qualquer. O céu é artificial, mas o fim de uma rua pode dar numa parede? Como dito pouco antes, a bolha é, então, uma ilha. Literalmente, cerca-se um pedaço de terra com água. Água traumática. Com função mantenedora da ordem, do ordenado, ou seja, de Truman (true-man) dentro dos limites do programa, há um trauma em sua infância. Tecnologia behaviorista. O mar, o barco, depois da morte do seu pai, é entendido psicofisiologicamente como ameaça. Há pânico quando próximo a essa imagem. As questões aeronáuticas são mantidas longe dele pela mídia terrorista; em todos os níveis, inclusive, no nível individual - além do social, do macro-marketing. Mas o cerne do argumento é o trauma do mar, meio mais fácil de locomoção para sair da ilha - do cenário. E a base, o que por sobre será construído todo o programa, todo o prédio hierárquico, dos tijolos reais, atores (braços do Criador-Diretor) aos satélites de transmissão, é a contribuição fundamental do Condicionamento.
.
A desordem é entendida ambiguamente ao longo do filme. No início, produz-se um trauma, gera-se uma desordem psicológica no "ator" principal (no sentido irônico ou no sentido sociológico), há desordem, pois perder um pai é desestabilizante. Essa desordem é irônica pois não é autogerativa, ou seja, não é imanente ao sistema mesmo de produção/destruição, é criada via externa pelo diretor, justamente com a idéia de formar uma ordem. É aparentemente idêntico: ciclo ordem-desordem-ordem... Mas é mais psicanalítico que ecológico. É a partir de algo externo, não autogerado. Vem de uma ordem que transcende a coisa que aconteceria por si própria, tal qual o modelo sócio-ecológico faria: autogerar-se. Acontece que o Criador-Diretor dá a ordem para a desordem, a fim de produzir subseqüente ordem. É um sistema linear - diferença fundamental - contra um sistema aberto, que seria essa noção macro de grupos observados pela Etologia. Há uma finalidade aparente no movimento externo quem vem do Diretor. É externo à Coisa. É desejo que, a partir da falta, produz a busca do que já o transcendeu desde o início: busca incessante, objeto a, externalidade psicanalítica. A natureza e os sistemas articulados nos estudos apresentados por Morin são autogerativos. O sistema-floresta, o sistema-savana, apesar das diferenças performáticas e afetivas dos indivíduos dali, é imanente. Tem produção independente de um meio externo. O que é demonstração mais apurada possível, no filme, desse ciclo ordem-desordem imanente, desse sistema caótico não-linear, é a ordem das coisas caindo por terra - literalmente: um refletor que cai, um trânsito notadamente artificial, um elevador sem um elevador propriamente. Não só isso, mas a desconfiança que é gerada, a menina que foi o primeiro amor, o pára-quedista louco, a cartografia realizada de forma fascista: "Só resta procurar... no mar!", lugar mais improvável para um traumático habitar.
.
Truman rompe com o dogma behaviorista, apesar de todas os reforços para o medo persistir, o sujeito true-man foi mais longe, em busca da verdade, foi para além do que estava circunscrito a si e traumatizado e mantido mecanicamente, foi além da parede psíquica que o barrava, foi para além de todo o caos que foi organizado exteriormente - psicanaliticamente - pelo Criador-Diretor. Há duas camadas de ação nesse filme: 1) produção artificial de ordem-desordem, por parte do agenciamento Criador e, necessariamente, produção de uma diferença sem cor, que, com o perdão da contradição aparente, é uma diferença que não escapa de produção do mesmo: processo empobrecedor. 2) produção autogerativa do ciclo ordem-desordem, caos imanente e criativo, não necessariamente mantenedor da mesma conjuntura, mas aberto a possibilidades novas, que escapa ao controle de um indivíduo qualquer, mesmo do controle de quem habita a escala máxima da pirâmide estrutural. A estrutura é móvel - necessariamente -, não se fixa a uma identidade: diretor que perde o controle, só resta ceder e desligar a transmissão, para além de seu desejo.
.
Está colocada então, de forma radical no filme, a diferença entre um controle individuado do sistema, encarnado na figura do Diretor, ele, a figura psicossocial diretor, que controlaria, de fora, ciclos de estabilidade-instabilidade, e um controle sócio-ecológico do sistema por parte dos fenômenos do que o próprio sistema, como estrutura, proporciona. Retro-alimentação desindividuada.
.
Todo sistema imanente nunca permanece estabilizado. Podemos dar como exemplo o próprio Capitalismo. Tem como lógica de sua "essência" um movimento de desterritorialização absoluta, tal qual nos apontam Deleuze & Guattari ao longo de toda a sua obra, o que significa que há desenfreada expansão do Capitalismo em busca de estados de coisas dito intocadas. O Capital buscaria sempre o que lhe seria externo para fazer dele um código interno ao próprio sistema. Capitalismo como sistema imanente é justamente territorializar coisas que, antes, não eram de seus códigos. A bolha da ilha, como grupo psicossocial, logo, imanente, autogerado, sofreria um movimento de criatividade, ou seja, diferença, a partir da re-significação das coisas que lhe pertencem com a soma de coisas que não eram suas, destruição de coisas e criação de novas. O grupo de macacos agencia o mar em sua culinária: expansão de um sistema imanente em direção a uma natureza - parte dela -, antes, intocada. O mar e os pequenos animais, agora, comestíveis. O sal e a nova caça são filhas da novidade anárquica da destruição-ordenação autogeradas.
.
Com a contribuição de Pedro Holanda (pedrowh.blogspot.com).
.