
Ser isto, ser aquilo. Como eu sou "de verdade"? Ou ainda, quais de mim mais aparecem pra você? Qual você mais vê de mim? Bom, provavelmente construí meu
modus operandi. Mas, na medida que isso foi percebido e, de repente, criticado, mudar é a saída. E será mesmo? O estratagema defendido pelo discurso de "seja você" ou "eu verdadeiro" é o meu estratagema, meu discurso. É projeto para uma vida inteira, do nascimento à morte, ser assim, desse jeito, e morrer assim. Ser desgraçadamente teimosa, é assim que será até morrer. O discurso neurótico de Lacan. A pergunta que andamos ao redor, como insetos voam ao redor da lâmpada, a pergunta que guia nossa vida, nossa questão-amuleto, a pergunta parasita que nos habita e nos destrói - não necessariamente, mas há potencial para isso -, era a essa pergunta que Suely Rolnik se referia. A verdade é irônica. O mundo não espera a resolução das contradições, não espera a dialética. Disjunção inclusiva. O projeto para uma vida é um projeto de uma vida inteira, sem perspectivas a não ser rodar, rodar e perguntar sempre a mesma pergunta. Uma pornochanchada levada ao pedestal por nós. O pior é que Lacan e Suely podem estar certos, mas estão certos numa situação existencial específica - porém, hegemônica. É um ser-num-mundo-mediocrizado. É, realmente, pensar e fazer tudo por hierarquia. Primeiro isso, depois aquilo. O mundo não espera a univocidade. A multiplicidade sacaneia quem

pensa em linha. Em uma linha. A riqueza é rechaçada toda hora, em prol da questão única. Vitória dos insetos que voam ao redor da lâmpada, derrota da multiplicidade. Isso, uma fotografia de um aqui e agora específico - porém, hegemônico. Sem dúvida.
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Imagens: Na ordem, Wassily Kandinsky - Farbstudie Quadrate, c.1913 e Robert Delaunay - Rhythm, Joie de Vivre.
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