sábado, 19 de julho de 2008

A Memória de Mariazinha e a de Joãozinho

Joãozinho disse pra Mariazinha que lembrar-se era questão de emergência existencial, a sua memória aplicava-lhe golpes de intencionalidade esquecizóide, oprimia-lhe num aqui-agora a-histórico que lhe distanciava de compromissos, boas e más obrigações que só a memória lhe lembra. Mariazinha disse pra Joãozinho que lembrar-se era um tormento. Ter uma boa memória era motivo de auto-blasfémia. Odiosa ligação supra-intencional com o passado. Nada de escolher, a obrigação de ter um historinha que não quer contar-se sempre mais que não querer contar nada. Chegou-se a cogitar, nessa conversa-confessa-a-mim, que dum eram memórias, cenas importantes, coisas que não se devia esquecer, mas coisas, assim, meio que sem peso de um sentimento ou outro, o mais importante era a coisa, e doutro que memória e intensidade tavam presentes, pra qualquer juízo, bom, ruim, pior ou qualquer, daí maldizer o que se lembra. Se cogitou qualquer hierarquia, porém já se viu que isso não funcionaria, não ia ajudar nada. Continuamos, eu e Mariazinha e Joãozinho, assim, cada qual com a memória dum e doutro num e noutro modo de memoriar.
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Imagem: Corte em "The Sun" de Andy Warhol.
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